Seu relacionamento mudou depois que o bebê nasceu?

Emoção na maternidade

Talvez vocês estivessem juntos há muitos anos antes de terem um filho.

Tinham uma rotina, um jeito de conversar, de sair, de dormir juntos, de dividir as tarefas e até de brigar e fazer as pazes.

Então o bebê nasce.

E, de repente, vocês continuam sendo as mesmas duas pessoas, mas quase nada ao redor continua exatamente no mesmo lugar.

O tempo muda. O sono muda. A casa muda. A intimidade muda. As prioridades mudam.

E o relacionamento depois que o bebê nasce também pode mudar.

Algumas mulheres percebem isso muito cedo. Sentem que estão mais distantes do parceiro, ficam irritadas com coisas que antes não incomodavam tanto ou começam a sentir uma espécie de ressentimento que nem sempre conseguem explicar.

E pode ser estranho perceber esses sentimentos justamente em um momento que, durante tanto tempo, foi imaginado como algo que aproximaria ainda mais o casal.

Mas talvez seja importante compreender uma coisa:

A chegada de um bebê não transforma apenas duas pessoas em pais. Ela também exige que aquele casal encontre uma nova forma de existir.

Quando grande parte da mulher está voltada para o bebê

Nos primeiros tempos depois do nascimento, é natural que exista uma ligação muito intensa entre a mãe e o bebê.

Há um bebê que depende profundamente de alguém para ser alimentado, aquecido, acalmado, protegido e compreendido.

E muitas mulheres entram em um estado de atenção muito particular.

Elas percebem pequenos movimentos, mudanças no choro, horários, sinais de fome, sono, desconforto. Mesmo quando estão fazendo outra coisa, uma parte da atenção continua voltada para o bebê.

Winnicott chamou de preocupação materna primária esse estado de sensibilidade aumentada que pode acontecer no período próximo ao nascimento e que favorece essa adaptação tão delicada às necessidades do bebê.

Na vida cotidiana, porém, isso pode significar estar profundamente envolvida em uma relação que exige muito do corpo e da mente.

Enquanto isso, o relacionamento amoroso continua existindo.

Só que aquela mulher talvez não consiga estar disponível para ele da mesma maneira que estava antes.

Não necessariamente porque deixou de amar o parceiro.

Talvez simplesmente porque, naquele momento, há muito dela sendo convocado em outro lugar.

“Parece que a sua vida continuou e a minha mudou completamente”

Esse talvez seja um dos sentimentos mais difíceis de admitir.

Às vezes, a mulher olha para o companheiro e percebe que ele também está cansado, que também ama o bebê e que está tentando participar.

Ainda assim, alguma coisa incomoda.

Ele consegue sair de casa sozinho.

Vai trabalhar.

Toma banho sem precisar calcular se o bebê vai acordar.

Come enquanto a comida ainda está quente.

Dorme sem despertar diante de cada pequeno barulho.

Consegue terminar uma conversa.

E talvez nenhuma dessas coisas seja exatamente um problema.

Mas, para uma mulher cuja vida passou a depender constantemente do ritmo de outra pessoa, observar que o parceiro ainda preserva partes da própria rotina pode despertar um sentimento difícil de nomear.

“Como a sua vida consegue continuar enquanto eu mal reconheço a minha?”

Nem sempre esse pensamento é justo com tudo o que o parceiro também está vivendo.

Mas sentimentos não aparecem apenas diante daquilo que consideramos racionalmente justo.

Eles também contam alguma coisa sobre a nossa experiência.

E, às vezes, por trás da irritação existe cansaço.

Por trás da raiva existe solidão.

E por trás do ressentimento pode existir uma mulher que também gostaria, por alguns instantes, de não precisar ser a pessoa que está disponível o tempo inteiro.

O ressentimento com o parceiro depois que o bebê nasce nem sempre significa falta de amor

É possível amar alguém e sentir raiva dessa pessoa.

É possível reconhecer tudo o que o parceiro faz e ainda desejar que ele fizesse mais.

É possível saber que ele também está aprendendo a ser pai e, ao mesmo tempo, sentir que ninguém percebe o quanto você está aprendendo a sustentar.

Essas experiências não precisam se anular.

O problema é que muitas mulheres se assustam quando percebem sentimentos assim.

“Por que estou tão irritada com ele?”

“Por que tudo o que ele faz me incomoda?”

“Por que eu sinto que preciso pedir tudo?”

“Por que parece que só eu sei o que precisa ser feito?”

Talvez parte desse ressentimento precise ser compreendida antes de ser julgada.

Porque, depois que um bebê nasce, não aumenta apenas a quantidade de tarefas dentro de uma casa.

Aumenta também a quantidade de coisas que precisam ser pensadas.

Quando você não faz tudo, mas precisa lembrar de tudo

Tem uma diferença importante entre dividir tarefas e dividir responsabilidades.

O parceiro pode trocar fraldas, dar banho, colocar o bebê para dormir, preparar uma mamadeira ou levá-lo ao pediatra.

Mas quem percebeu que as fraldas estavam acabando?

Quem marcou a consulta?

Quem lembrou da vacina?

Quem separou a roupa que precisava ir na bolsa?

Quem está acompanhando os horários de sono?

Quem percebeu que determinada roupa deixou de servir?

Quem sabe o que precisa ser comprado para a próxima semana?

Essa parte invisível do cuidado costuma ser chamada de carga mental.

E ela pode ser exaustiva justamente porque quase nunca termina.

Às vezes, o companheiro diz:

“Era só ter me pedido.”

Mas o que aquela mulher talvez esteja tentando dizer é:

“Eu não queria precisar ser a pessoa que percebe, organiza e depois distribui tudo o que precisa ser feito.”

Isso não significa que todo relacionamento funcione dessa maneira.

Também não significa que todo pai esteja ausente ou que toda mãe carregue sozinha os cuidados com o bebê.

Mas, quando essa dinâmica aparece, compreendê-la pode ajudar o casal a conversar sobre algo que vai muito além de quem lavou a louça ou trocou a última fralda.

A intimidade do casal também pode mudar depois da chegada do bebê

Existe ainda uma parte da relação sobre a qual nem sempre é fácil conversar.

Depois do nascimento de um bebê, o corpo da mulher passou por uma experiência intensa.

Pode existir recuperação do parto, amamentação, alterações hormonais, privação de sono, cansaço, mudanças na imagem corporal e um bebê que solicita contato físico durante boa parte do dia.

Nesse contexto, a sexualidade e o desejo também podem mudar.

Às vezes, o parceiro sente falta da proximidade que existia antes.

Às vezes, a mulher sente falta também — mas não consegue simplesmente acessá-la.

E pode surgir outra diferença difícil: enquanto um está tentando recuperar o casal que existia, o outro talvez ainda esteja tentando compreender quem se tornou depois daquela experiência.

Não necessariamente há alguém errado nessa história.

Pode haver apenas dois tempos diferentes acontecendo dentro da mesma relação.

As mudanças emocionais que acontecem depois do nascimento também podem fazer com que algumas mulheres sintam que já não se reconhecem da mesma maneira. Se esse sentimento faz sentido para você, leia também: Não me reconheço depois que meu bebê nasceu: as mudanças emocionais no puerpério.

O parceiro também está tentando encontrar um novo lugar

Reconhecer o que acontece com a mulher não significa ignorar a experiência de quem está ao lado dela.

O nascimento de um bebê também transforma a vida do parceiro.

Ele pode sentir insegurança, medo de fazer algo errado, dificuldade de compreender o que a mulher precisa e até a sensação de não saber mais como se aproximar dela.

Pode sentir falta da relação anterior.

Pode querer ajudar e não saber como.

Pode se sentir rejeitado.

Pode perceber uma ligação tão intensa entre mãe e bebê que tenha dificuldade de encontrar o próprio lugar naquela nova configuração familiar.

Olhar para isso não diminui a experiência materna.

Ao contrário.

Ajuda a compreender que uma família está sendo construída enquanto um relacionamento também precisa ser reorganizado.

Talvez vocês não precisem voltar a ser o casal que eram antes

É compreensível sentir saudade.

Saudade de sair sem organizar horários.

De conversar sem interrupções.

De dormir juntos sem que alguém esteja permanentemente atento a outro quarto.

Da espontaneidade.

Do sexo.

Das viagens.

Ou simplesmente de conseguir olhar um para o outro sem que a conversa termine em fralda, sono, mamada, escola, pediatra ou alguma coisa que precisa ser resolvida.

Mas talvez a questão não seja exatamente recuperar a relação que existia antes.

Porque vocês também não são exatamente as mesmas pessoas.

A maternidade transforma a mulher.

A paternidade também pode transformar o homem.

E ter um filho modifica a dinâmica de um casal de maneiras que nem sempre conseguimos antecipar antes de viver.

Talvez exista um trabalho mais delicado acontecendo:

descobrir quem vocês conseguem ser juntos agora.

Seu relacionamento mudou depois que o bebê nasceu?

Se mudou, isso não significa necessariamente que alguma coisa deu errado.

Talvez existam conversas que ainda não aconteceram.

Necessidades que não foram percebidas.

Cansaços que viraram irritação.

Pedidos de cuidado que apareceram na forma de cobrança.

Saudades que nunca foram ditas.

Ou ressentimentos que precisam primeiro encontrar palavras para depois poderem ser compreendidos.

Nem todo sentimento precisa imediatamente de uma solução.

Às vezes, antes de perguntar “como fazemos para voltar a ser como antes?”, pode ser mais importante perguntar:

“O que aconteceu comigo, com você e com a nossa relação depois que nos tornamos pais?”

Porque reconhecer que amor, cansaço, raiva, saudade, desejo de proximidade e vontade de ficar sozinha podem coexistir talvez seja um começo.

Não para apontar quem está certo.

Mas para que duas pessoas consigam voltar a se enxergar para além das funções que passaram a ocupar.

E, aos poucos, construir uma relação que tenha espaço para o bebê que chegou, sem que o casal que existia antes precise desaparecer.

Se as mudanças vividas depois da chegada do bebê têm sido difíceis de compreender ou atravessar, a psicoterapia pode ser um espaço para olhar também para o que aconteceu com você nesse processo.

Conheça como funciona a psicoterapia perinatal.

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