Como uma experiência traumática na gestação ou no parto pode afetar a maternidade

Durante a gestação, é comum imaginar como será a chegada do bebê, o parto, os primeiros dias em casa e a vida depois que ele nascer.

Mas nem sempre essa história acontece como foi imaginada.

Uma intercorrência durante a gravidez, um parto difícil, uma situação em que a mulher sentiu que sua vida ou a do bebê estava em risco, uma internação, a prematuridade ou alguma complicação após o nascimento podem transformar um período que era esperado com alegria em uma experiência marcada pelo medo.

O tempo passa. O bebê vai para casa. Os exames mostram que está tudo bem. A rotina começa, aos poucos, a encontrar um caminho.

Mas, para aquela mulher, alguma coisa pode continuar em estado de alerta.

Às vezes, o perigo terminou, mas a sensação de perigo permaneceu.

E isso pode começar a aparecer justamente na maneira como ela vive a maternidade.

Depois de uma experiência traumática, pode ser difícil acreditar que está tudo bem

Uma das formas como essa sensação de ameaça pode aparecer é na dificuldade de se separar do bebê.

Deixá-lo com o parceiro, com os avós ou com outra pessoa de confiança pode provocar uma angústia muito maior do que a própria mulher imaginava.

Sair de casa sem o bebê pode ser difícil. Retomar compromissos pode gerar medo. Voltar ao trabalho pode parecer impossível.

Em alguns momentos, pode surgir uma sensação muito concreta:

“Se eu não estiver presente, alguma coisa ruim pode acontecer.”

Não necessariamente porque ela acredita que as outras pessoas sejam incapazes de cuidar da criança. Muitas vezes, é a própria presença que passou a representar segurança.

Se estar perto significa conseguir observar, conferir e agir rapidamente diante de qualquer problema, afastar-se significa abrir mão desse controle.

E, depois de ter vivido uma situação em que perdeu a sensação de segurança, fazer isso pode ser extremamente difícil.

Quando o medo leva a uma necessidade constante de proteger o bebê

Proteger um bebê faz parte do cuidado.

O que merece atenção é quando a necessidade de protegê-lo começa a ocupar quase todos os espaços da vida da mulher e ela percebe que não consegue descansar mesmo quando existem outras pessoas disponíveis para cuidar.

Pode existir dificuldade para delegar, necessidade constante de acompanhar o que está acontecendo, medo intenso diante de situações comuns da infância ou uma antecipação frequente de que alguma coisa dará errado.

Nesses casos, tentar controlar tudo o que acontece ao redor da criança pode também ser uma tentativa de evitar sentir novamente o desamparo vivido durante uma experiência traumática.

Não se trata simplesmente de dizer a essa mulher que ela precisa “relaxar” ou “proteger menos”.

É importante compreender o que torna tão assustador para ela deixar de estar no controle.

Voltar à rotina pode significar muito mais do que ficar algumas horas longe do bebê

O retorno ao trabalho depois da maternidade já envolve mudanças importantes mesmo quando a gestação e o parto transcorreram sem grandes intercorrências.

Depois de uma experiência traumática, essa separação pode ganhar outro significado.

Não é apenas voltar a trabalhar.

Pode significar estar longe justamente da pessoa que ela sente que precisa proteger.

Por isso, algumas mulheres podem adiar a retomada da rotina, evitar sair sozinhas, abandonar atividades que faziam anteriormente ou organizar praticamente toda a própria vida em torno da possibilidade de permanecer perto da criança.

Aos poucos, o medo pode começar a limitar não apenas a separação entre mãe e bebê, mas também o espaço daquela mulher para existir para além da vigilância.

Por que é tão difícil se sentir segura novamente?

Depois de viver uma situação assustadora durante a gestação ou o parto, saber racionalmente que o bebê está bem nem sempre é suficiente para que a mulher volte a se sentir segura.

O risco pode ter passado, os exames podem estar bons e a rotina pode estar começando a se reorganizar. Ainda assim, ela pode continuar esperando que alguma coisa aconteça.

“Seu bebê está bem.”

“Agora você precisa aproveitar.”

“Você precisa confiar mais.”

“Não aconteceu nada.”

Essas frases podem vir de pessoas que realmente querem ajudar. O problema é que elas falam sobre como as coisas estão agora, enquanto aquela mulher ainda pode estar tentando compreender o que viveu antes.

A resolução de uma intercorrência ou o nascimento de um bebê saudável não apagam automaticamente o medo, a sensação de impotência ou a ameaça experimentada naquele período.

E quando não existe espaço para falar sobre o que aconteceu, a mulher pode começar a se perguntar por que não consegue simplesmente seguir em frente como todos parecem esperar.

Mas o fato de o risco ter passado não significa que ela já tenha conseguido se sentir segura novamente.

Nem toda experiência difícil se transforma em trauma

É importante fazer essa diferença.

Viver uma intercorrência na gestação, um parto difícil ou uma situação de medo não significa necessariamente que aquela experiência será traumática para todas as mulheres.

A maneira como cada pessoa vive e elabora um acontecimento depende de muitos fatores: sua história, a intensidade da situação, a percepção de ameaça, o suporte recebido, a forma como foi cuidada e também o que aconteceu depois.

Por isso, não é o objetivo olhar para qualquer preocupação materna e transformá-la em um diagnóstico.

Mas quando o medo permanece muito intenso, interfere no sono, dificulta separações, impede a retomada da rotina, produz uma necessidade constante de vigilância ou começa a restringir significativamente a vida da mulher, vale olhar para esse sofrimento com mais atenção.

Falar sobre o que aconteceu também pode fazer parte do cuidado

Talvez uma das coisas mais difíceis depois de uma experiência traumática na gestação ou no parto seja perceber que a história terminou para todos os outros, mas ainda não terminou emocionalmente para quem a viveu.

Ter um espaço em que seja possível falar sobre o medo, a impotência, as lembranças e também sobre a maneira como tudo isso passou a atravessar a maternidade pode ajudar a compreender por que algumas situações do presente ainda despertam uma sensação tão intensa de perigo.

A psicoterapia perinatal pode oferecer esse espaço.

Não para convencer uma mãe de que ela está protegendo demais o filho, mas para ajudá-la a compreender por que se afastar, confiar e baixar a guarda se tornaram tão difíceis depois do que viveu.

Porque conseguir reconhecer que o perigo passou não significa esquecer o que aconteceu.

Pode significar, aos poucos, não precisar mais viver como se ele pudesse acontecer novamente a qualquer momento.

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