Quando o casal também precisa se reencontrar depois que os filhos chegam

Nem sempre acontece de forma abrupta.

Às vezes, o casal apenas percebe que faz tempo que não conversa sobre algo que não seja a rotina.

Faz tempo que não sai sozinho.

Faz tempo que não compartilha um momento sem interrupções.

Faz tempo que não fala sobre planos, sonhos ou qualquer assunto que não envolva filhos, trabalho, contas ou compromissos.

E, em algum momento, surge uma pergunta silenciosa:

Em que momento nós nos afastamos?

A chegada dos filhos costuma ser uma das maiores transformações que um relacionamento pode viver.

Não porque o amor desaparece.

Mas porque a vida muda.

A rotina muda.

As prioridades mudam.

E as pessoas também mudam.

De repente, dois adultos que antes tinham mais tempo um para o outro passam a dividir noites mal dormidas, preocupações, responsabilidades e uma quantidade enorme de decisões diárias.

Existe alguém que depende deles o tempo todo.

E isso exige adaptações.

Muitas adaptações.

O relacionamento após a chegada dos filhos costuma passar por mudanças importantes, e muitos casais se surpreendem ao perceber o quanto a parentalidade pode impactar a conexão emocional entre eles.

O problema é que, enquanto aprendem a ser pais, nem sempre conseguem perceber o que está acontecendo com o casal.

Porque o afastamento raramente começa em uma grande discussão.

Na maioria das vezes, ele acontece aos poucos.

Nas conversas adiadas.

Nos momentos que deixam de existir.

Nas pequenas demonstrações de carinho que vão sendo substituídas pelas urgências da rotina.

E, quando percebem, já não sabem exatamente como voltar a se encontrar.

Muitas mulheres chegam à terapia acreditando que existe algo errado com o relacionamento.

E, em alguns casos, realmente existem questões que precisam ser olhadas.

Mas, em muitos outros, o que existe é um casal profundamente cansado.

Um casal que se ama, mas que tem vivido mais como uma equipe tentando dar conta da rotina do que como duas pessoas que também precisam cuidar do vínculo que construíram.

Porque existe uma diferença entre funcionar juntos e sentir-se conectado.

E é justamente essa conexão que costuma sofrer quando toda a energia está sendo direcionada para os cuidados com os filhos, o trabalho, a casa e as inúmeras demandas que acompanham essa fase da vida.

Talvez uma das partes mais difíceis seja perceber que ninguém preparou aquele casal para essa mudança.

Muitas pessoas se preparam para a gravidez.

Para o parto.

Para a chegada do bebê.

Mas poucas conversam sobre o impacto que tudo isso pode ter na relação.

Sobre as mudanças na intimidade.

Sobre o cansaço.

Sobre as diferenças na forma de lidar com a parentalidade.

Sobre a saudade que, às vezes, surge da relação que existia antes.

E sentir saudade não significa desejar voltar no tempo.

Não significa amar menos os filhos.

Significa apenas reconhecer que uma nova fase começou e que ela exige que o casal encontre novas formas de estar junto.

Porque relacionamentos não costumam se perder de uma vez.

Eles se afastam aos poucos.

Mas também podem se reencontrar aos poucos.

Em uma conversa mais sincera.

Em um momento de escuta.

Em pequenas tentativas de voltar a enxergar não apenas o pai ou a mãe que existe diante de si, mas também a pessoa por quem um dia se apaixonou.

Talvez o reencontro não aconteça voltando a ser quem eram antes dos filhos.

Talvez ele aconteça quando o casal se permite conhecer quem se tornou depois deles.

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