Os impactos emocionais dos tratamentos para engravidar

Tem mulheres que já não conseguem olhar para o próprio corpo sem analisá-lo.

Cada sensação diferente gera expectativa. Cada atraso menstrual traz esperança. Cada menstruação pode vir acompanhada de uma frustração difícil de explicar para quem nunca viveu essa espera.

Quando a gravidez demora a acontecer, a tentativa começa, aos poucos, a ocupar espaço demais na vida.

O pensamento vai para o ciclo, para os sintomas, para o próximo exame, para o próximo período fértil. Muitas mulheres percebem que não conseguem mais “desligar” emocionalmente desse assunto. Como se a cabeça estivesse sempre esperando alguma coisa acontecer.

E, junto disso, começam a aparecer caminhos que antes pareciam distantes.

Método Billings. Coito programado. Indução da ovulação. Naprotecnologia. Inseminação intrauterina. Fertilização in vitro.

Para quem está vivendo esse processo, esses nomes deixam de ser apenas possibilidades médicas e passam a fazer parte da rotina emocional da vida.

Porque tentar engravidar pode deixar de ser apenas um desejo e começar a atravessar a forma como essa mulher vive o próprio corpo, o relacionamento, os planos e até a forma como se percebe.

Existe uma hipervigilância que se instala silenciosamente.

O corpo passa a ser observado o tempo inteiro. Temperatura, muco, sintomas, testes, exames, datas. Como se qualquer pequeno sinal pudesse finalmente trazer a resposta tão esperada.

E isso é emocionalmente desgastante.

Tem mulheres que percebem que já não conseguem relaxar em nenhum momento do ciclo. Outras começam a sentir culpa, como se o corpo estivesse falhando. Algumas evitam encontros, anúncios de gravidez ou chás de bebê porque tudo isso começa a tocar em uma dor difícil de sustentar repetidamente.

Muitos casais também sentem os impactos dessa tentativa constante.

O sexo pode perder espontaneidade e passar a acontecer em função do período fértil. As conversas começam a girar em torno de exames, resultados, hormônios, próximos passos e expectativas que vão se acumulando a cada novo ciclo.

E, em alguns momentos, o cansaço começa a aparecer junto da esperança.

Porque cada novo “não” também desgasta emocionalmente.

Existe ainda uma pergunta muito delicada, que muitas mulheres e casais começam a carregar silenciosamente depois de muitas tentativas frustradas:

“até quando continuar?”

E talvez uma das partes mais difíceis seja justamente perceber que não existe uma resposta simples para isso.

Continuar tentando pode ser emocionalmente, fisicamente e financeiramente exaustivo. Mas pensar em parar também pode trazer culpa, sensação de desistência ou medo de se arrepender no futuro.

Por isso, muitas vezes, o cuidado emocional se torna tão importante quanto o acompanhamento médico.

A terapia pode ajudar justamente a construir um espaço onde essa mulher ou esse casal consiga existir para além da tentativa. Um lugar para organizar emoções, elaborar frustrações, diminuir a solidão emocional e olhar para esse processo com mais cuidado e menos autocobrança.

Porque, quando a vida começa a girar em torno da espera por um positivo, sustentar tudo isso sozinho pode ser pesado demais.

Se esse processo tem sido emocionalmente difícil para você, talvez esse também seja um momento importante para cuidar disso.

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