Os impactos emocionais da maternidade atípica

Quando uma mulher descobre a gestação, ela também começa, aos poucos, a imaginar um filho. Imagina cenas, fases, conversas, escola, amizades, passeios, pequenos encontros da vida que vão sendo construídos dentro dela muito antes do nascimento.

E, quando a maternidade acontece de um jeito diferente do esperado, existe uma reorganização emocional muito profunda que quase ninguém vê.

Porque amar um filho atípico não impede o sofrimento.

Existe o impacto do diagnóstico. Existe o medo do futuro. Existe o cansaço das terapias, das adaptações, dos olhares, das crises, da necessidade constante de vigilância. Existe uma rotina que, muitas vezes, gira em torno de antecipar situações para evitar desorganizações maiores.

E existe também uma solidão difícil de explicar.

Porque nem sempre as outras pessoas entendem. Algumas julgam. Outras se afastam. Outras apenas observam de fora sem imaginar o quanto aquela mãe já tentou antes de chegar naquele momento.

Tem mães que vivem em estado constante de alerta. Sempre prontas para intervir, conter, explicar, proteger. Muitas saem de casa já tensas, sem saber como o filho vai reagir em determinados ambientes, se haverá uma crise, se vão conseguir permanecer ali ou se precisarão ir embora antes mais uma vez.

E quando o comportamento da criança afeta outras pessoas, isso também machuca essa mãe.

Machuca perceber os olhares. Machuca sentir que o filho incomoda. Machuca não saber, em alguns momentos, como ajudar a criança, e nem a si mesma.

A maternidade atípica também atravessa expectativas.

Não porque essas mães amem menos seus filhos. Mas porque, muitas vezes, precisam elaborar a diferença entre a maternidade que imaginaram e a que vivem na realidade. E esse processo pode vir acompanhado de culpa, ambivalência, tristeza e exaustão.

Só que nem sempre existe espaço para falar sobre isso sem medo de parecer ingrata ou incapaz.

Ao mesmo tempo, existem outras mães tentando lidar com os impactos desses comportamentos nos próprios filhos, nas próprias rotinas, nos próprios limites. E sustentar essas duas realidades ao mesmo tempo nem sempre é simples.

Talvez um dos caminhos mais difíceis, e mais humanos, seja justamente conseguir olhar para além do comportamento e lembrar que, por trás daquela criança desorganizada, muitas vezes existe uma mãe igualmente exausta, tentando não desmoronar.

Mães atípicas também precisam de cuidado. Também adoecem emocionalmente. Também se sentem sozinhas. Também precisam de espaços onde possam falar sem precisar sustentar força o tempo todo.

E, muitas vezes, o acolhimento começa quando alguém consegue enxergar não só a crise da criança, mas a dor silenciosa de quem está tentando atravessar tudo isso junto com ela.

Se essa realidade tem sido emocionalmente difícil para você, talvez esse também seja um momento de cuidar disso.

Respostas

  1. Avatar de Lucas Palhão

    Claro que também me afeta, mas vejo minha esposa sofrer muito mais com isso…

    As opiniões alheias infelizmente a ferem demais e não tenho como protegê-los de tudo (pelo menos por enquanto).

    Somente com oração conseguimos viver dia após dia.

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    1. Avatar de jessicasilva.psicologia

      Imagino o quanto deve ser difícil acompanhar o sofrimento de quem a gente ama e, ao mesmo tempo, perceber que nem sempre consegue protegê-los de tudo. A maternidade atípica atravessa a família inteira de muitas formas, inclusive emocionalmente. Obrigada por compartilhar um pouco disso aqui. Desejo que vocês encontrem, além da força para seguir dia após dia, espaços de acolhimento e cuidado também para vocês.

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