Depois de uma perda gestacional: quando tentar engravidar de novo?

Depois de uma perda gestacional, nem sempre o desejo de engravidar desaparece. Para muitas mulheres, ele continua ali. Às vezes até mais presente. Mas junto com ele, começam a aparecer dúvidas que não são simples de responder.

“Será que já posso tentar de novo?”
“E se acontecer outra vez?”
“Será que meu corpo está pronto?”
“E eu… estou?”

Essa última pergunta nem sempre é feita em voz alta, mas costuma estar presente.

Existe uma parte prática nessa decisão, que diz respeito ao corpo. Do ponto de vista físico, em casos sem complicações, algumas recomendações médicas mais recentes, como as do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), indicam que não há necessidade obrigatória de esperar longos períodos para uma nova tentativa. Em muitos casos, é possível tentar novamente assim que o corpo se recuperar do ponto de vista clínico. Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda adota uma orientação mais conservadora, sugerindo um intervalo maior entre uma gestação e outra. Ou seja, mesmo no campo médico, não existe uma única resposta.

Mas, na prática, a dúvida raramente é só física. Porque, mesmo quando o corpo se recupera, a experiência não desaparece no mesmo ritmo. Fica uma memória. Fica um medo que antes não existia. Fica uma atenção maior a cada sinal do corpo, a cada exame, a cada sintoma.

Tentar novamente pode vir acompanhado de esperança, mas também de um certo receio de se envolver demais. Como se, de alguma forma, fosse preciso se proteger. Algumas mulheres se percebem mais ansiosas. Outras evitam pensar muito. Outras querem tentar rapidamente, como uma forma de não ficar tanto tempo em contato com a ausência. Nenhuma dessas formas é errada. Mas todas dizem de algo que ainda está sendo processado.

E é aí que a pergunta “quando tentar de novo?” começa a ganhar outra dimensão. Ela deixa de ser só sobre tempo. E passa a ser também sobre condição emocional.

Porque não se trata apenas de estar pronta fisicamente. Se trata de conseguir se aproximar de uma nova gestação sem precisar sustentar tudo sozinha por dentro. Sem carregar, ao mesmo tempo, o desejo e o medo sem ter onde colocar isso.

A terapia, nesse momento, pode funcionar como um espaço importante. Não para dizer quando é o momento certo. Mas para ajudar a entender o que está sendo sentido, dar lugar à experiência da perda, sustentar o desejo de tentar novamente e construir, aos poucos, uma forma mais possível de atravessar esse processo.

Não existe um tempo único que sirva para todas as mulheres. Existe o seu tempo. E, muitas vezes, ele precisa ser escutado com mais cuidado do que apressado.

Se essa decisão tem vindo acompanhada de dúvida, medo ou insegurança, talvez esse seja um momento importante para cuidar disso.

Referências utilizadas neste conteúdo:

American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Early Pregnancy Loss: Practice Bulletin No. 200. Obstetrics & Gynecology, 2018.
World Health Organization (WHO). Report of a WHO Technical Consultation on Birth Spacing. Geneva: WHO, 2005.
World Health Organization (WHO). Healthy Timing and Spacing of Pregnancy: A Family Planning Investment Strategy for Accelerating the Pace of Improvements in Child Survival. 2007.

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