Retorno ao trabalho após a maternidade: volto ou não?

Retornar ao trabalho após a maternidade é uma das decisões mais complexas que muitas mulheres enfrentam no puerpério. Não se trata apenas de voltar a uma função, mas de lidar com conflitos internos, culpa materna, mudanças profundas de identidade e a tentativa de conciliar carreira e maternidade.

Quando meu filho nasceu, eu entrei em um grande conflito com a minha carreira. Minha formação ainda estava no começo e havia um desejo genuíno de que ela crescesse, de que eu pudesse me realizar profissionalmente. Ao mesmo tempo, existia uma idealização silenciosa: a de que eu conseguiria ser tudo e entregar o meu potencial nesses dois papéis.

Não foi isso que aconteceu.

À medida que eu ficava mais tempo com meu filho, menos desejo eu sentia de trabalhar. Junto disso, surgiam vozes internas duras, questionadoras, que diziam que eu estava sendo fraca, que outras mulheres davam conta, que eu precisava me esforçar mais.

O meu puerpério foi atravessado por pensamentos que não me deixavam em paz.

Ainda durante a licença-maternidade, fui tentando retomar o trabalho aos poucos, de casa mesmo. Às vezes, pedia para familiares ficarem com meu filho enquanto eu trabalhava. Mas, para mim, essa experiência foi extremamente difícil. Eu ouvia meu filho chorar no outro cômodo, sentia culpa, cansaço e uma sensação constante de fracasso. Tentava entregar o meu melhor para ele e para a carreira, mas parecia não conseguir ser suficiente em nenhum dos dois lugares.

Naquele período, eu trabalhava em regime CLT e também com atendimento clínico. Conforme o fim da licença-maternidade se aproximava, a ideia de retornar ao trabalho começou a se tornar insustentável. Foi quando comecei a adoecer emocionalmente, a me sentir deprimida e profundamente confusa.

Eu me perguntava o tempo todo:
o que há de errado comigo?

A resposta, com o tempo, ficou clara: nada.

O que eu não conseguia admitir era que eu não me via mais trabalhando da forma como trabalhava antes. O desejo de cuidar do meu filho, de acompanhá-lo de perto, de estar presente no seu crescimento, falava mais alto. Venho de uma família numerosa, com uma mãe incrível, que trabalhou muito para nos criar. Ela fez o melhor que pôde, mas eu sentia falta de tempo, de carinho, de acolhimento. E, lá no fundo, eu não queria que meu filho sentisse o que eu senti.

Com a chegada da pandemia, decidi me arriscar e assumir o meu desejo de cuidar de forma integral. Fiz essa escolha.

Hoje, olhando para trás, posso dizer que foi a melhor decisão para mim naquele momento. Mas isso não significa que tenha sido fácil. Houve conflitos internos, medo de julgamentos, inseguranças financeiras e emocionais. Foi preciso sustentar os desconfortos que vieram junto com essa escolha.

Compartilho essa história porque existe algo importante de ser dito: independente da escolha que você fizer sobre voltar ao trabalho ou não, vai doer em algum lugar. E isso não significa que a sua escolha esteja errada.

Cada mulher carrega uma história, um contexto social, financeiro e emocional. A forma como vivemos o retorno ao trabalho após a maternidade está profundamente ligada às nossas vivências. Ser mãe e ser profissional não são papéis opostos, mas conciliá-los nem sempre é possível da forma como idealizamos.

No meu caso, eu estava dividida. Minha cabeça estava fora do lugar. Cheguei a um ponto em que assumir, em voz alta, o desejo de ficar com meu filho fez meu coração quase explodir. Tive medo do julgamento da família, do parceiro, dos pacientes e de como essa decisão seria vista.

Foi na psicoterapia que encontrei um espaço seguro para falar, elaborar e sustentar essa escolha.

Voltar ao trabalho ou permanecer mais tempo com o filho é uma decisão que cabe a cada mulher. Só você sabe como é a sua vida, quais são as suas possibilidades reais. Reconheço que tive o privilégio de poder escolher, muitas mulheres não têm. Para elas, o retorno ao trabalho não é uma decisão, é uma necessidade.

Cada escolha é única. Ela atravessa o puerpério, a saúde mental materna, a realidade financeira e as condições de apoio disponíveis. Não existe escolha sem custo.

Mas existe a possibilidade de escolher aquilo que, naquele momento, te deixa mais inteira.

Resposta

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