Engravidar não é apenas um evento biológico. É também um encontro com o imaginário.
Antes mesmo do teste positivo, muitas mulheres já imaginaram um bebê: um nome, um rosto, uma cena, uma vida. E, nesse imaginário, o sexo do bebê costuma ocupar um lugar importante.
Há mulheres que sempre sonharam com uma menina.
Outras, com um menino.
Há também aquelas que dizem não se importar e, ainda assim, se surpreendem quando a notícia chega.
Quando o sexo do bebê não corresponde ao que foi desejado ou imaginado, sentimentos difíceis podem surgir. Tristeza, frustração, confusão e culpa são mais comuns do que se imagina. Muitas mulheres se perguntam, em silêncio, se é “normal” sentir isso durante a gestação.
Esse impacto emocional não fala sobre falta de amor pelo bebê. Ele fala sobre expectativas, histórias de vida, vivências emocionais e lutos simbólicos. A gestação, muitas vezes, ativa lembranças profundas: a relação com a própria mãe ou pai, experiências da infância, faltas, desejos antigos e modelos de cuidado que foram, ou não, vividos.
Para algumas mulheres, o sexo do bebê toca em feridas antigas.
Para outras, representa a quebra de uma fantasia construída ao longo de muitos anos.
Há também quem precise de um tempo maior para elaborar essas emoções antes de conseguir acessar alegria ou tranquilidade.
E esse tempo é legítimo.
Existe uma pressão social para que a gravidez seja vivida apenas com felicidade e gratidão, como se não houvesse espaço para ambivalência. Quando sentimentos diferentes surgem, muitas mulheres se calam, com medo de julgamento ou de serem vistas como ingratas.
Mas a saúde mental na gestação passa justamente pela possibilidade de reconhecer o que se sente, sem culpa e sem silenciamento.
Elaborar o fato de que o sexo do bebê não corresponde ao imaginário inicial não significa rejeição. Significa permitir que o imaginário seja transformado, dando lugar ao bebê real que está chegando, com sua própria existência e singularidade.
Cada mulher vive esse processo de forma única. Algumas elaboram rapidamente. Outras precisam de mais tempo, escuta e acolhimento emocional. O que faz diferença não é o sentimento em si, mas a possibilidade de nomeá-lo, compreendê-lo e não atravessá-lo sozinha.
Falar sobre esse tema é reconhecer que a maternidade não começa a partir da perfeição, mas da verdade emocional possível naquele momento.

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