Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer de onde eu falo.
Eu não escrevo esse texto como alguém que viveu a experiência de gestar fora do país.
Eu escrevo como psicóloga que atende, todos os dias, brasileiras e brasileiros que estão atravessando essa fase longe da sua rede de apoio.
Eu não conheço essa vivência pela pele.
Eu conheço pelas histórias que chegam até mim.
E elas têm algo em comum.
Quase sempre começam assim:
“Eu escolhi estar aqui… então não deveria estar me sentindo desse jeito.”
Mas o “jeito” que aparece é solidão. É medo. É ansiedade. É uma culpa silenciosa por não estar vivendo só a parte bonita da gravidez no exterior.
Morar fora já exige uma reconstrução interna enorme.
Você aprende outra língua, outra burocracia, outro sistema de saúde, outro jeito de se relacionar. Tudo o que era automático no Brasil deixa de ser.
Agora imagine fazer pré-natal nesse contexto.
Eu escuto mulheres que saem da consulta médica e só entendem de verdade o que foi dito horas depois, pesquisando termos na internet.
Escuto o medo de não conseguir se comunicar numa emergência.
Escuto a angústia de não saber como funciona o parto naquele país, quais são as regras, os direitos, as possibilidades.
E junto com isso vem algo que quase ninguém valida: o luto.
Luto por não viver essa gestação perto da mãe.
Luto por não ter as amigas por perto.
Luto por não poder simplesmente “ir ali” e ter alguém que entenda sem precisar explicar tudo.
E não, isso não anula a gratidão pela oportunidade de estar fora.
As duas coisas podem existir juntas.
Também escuto os homens.
Parceiros que se sentem pressionados a sustentar tudo emocionalmente porque não há família por perto.
Casais que começam a se desentender mais porque o estresse é maior e a rede é menor.
Depois que o bebê nasce, a conversa muda de tom, mas não perde intensidade.
Tem o pós-parto sem ajuda prática.
Tem o medo de adoecer.
Tem a dúvida sobre como criar um filho entre culturas.
Tem a sensação de estar sempre traduzindo não só a língua, mas a própria identidade.
Eu não romantizo essas histórias.
Eu vejo força, sim, mas vejo também exaustão. Vejo mulheres tentando ser fortes o tempo inteiro porque acreditam que precisam dar conta, afinal “foi uma escolha”.
E é exatamente aqui que eu entro.
Do lugar de quem escuta diariamente essas demandas.
Do lugar de quem compreende os atravessamentos emocionais da gestação e também as camadas adicionais que surgem quando ela acontece fora do Brasil.
Do lugar de quem sabe que, muitas vezes, o que falta não é informação, é acolhimento.
Se você é brasileira, está grávida e mora em outro país, talvez reconheça algo seu aqui.
Talvez você esteja funcionando bem por fora, consultas em dia, documentos organizados, rotina estruturada, mas por dentro exista um cansaço que quase ninguém vê.
Cuidar da saúde mental na gestação já é importante. Longe da rede de apoio, isso se torna ainda mais necessário.
Ter um espaço em português.
Um espaço onde você não precise traduzir o que sente.
Um espaço onde gratidão e tristeza possam coexistir sem julgamento.
Eu não falo como quem viveu.
Falo como quem acompanha, sustenta e acolhe essas travessias todos os dias.
E se tem algo que aprendi ouvindo tantas histórias é isso:
você não precisa atravessar essa fase tentando ser forte o tempo inteiro.

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