Para quem ainda não viveu a maternidade, ou a observa de fora, é fácil julgar uma mulher que, em alguns momentos, deseja se afastar da função materna.
Esse afastamento, porém, não fala de fuga.
Fala de respirar.
Fala de existir para além de um único papel.
A maternidade não é uma camada só.
Ela é feita de muitas camadas, que se sobrepõem, se chocam e, muitas vezes, nos obrigam a desconstruir e ressignificar a própria história. Tornar-se mãe provoca transformações profundas, não apenas naquilo que é visível, mas principalmente no que acontece por dentro.
Existe uma expectativa silenciosa (e pesada) colocada sobre as mães:
a de que elas sigam sempre,
amem sem se olhar,
se doem sem medida,
e entendam que os filhos precisam ser tudo, mesmo que isso custe a própria existência.
Os filhos podem, sim, ser tudo na vida de uma mulher.
Mas se abandonar não deveria ser o preço.
No início da maternidade, é natural que essa mulher se coloque em segundo plano. Há uma entrega intensa, uma fusão necessária, uma adaptação que envolve o corpo, o emocional, a rotina e a identidade. Muitas vezes, esse “se deixar de lado” acontece por necessidade, dela e do bebê.
O problema começa quando essa fase não encontra passagem.
Quando a mãe não consegue, aos poucos, se reconhecer novamente, se escutar, se incluir na conta do cuidado. Quando ela permanece imersa apenas nesse papel, sem espaço psíquico para ser mulher, pessoa, sujeito.
É nesse ponto que muitas mães adoecem emocionalmente.
Não porque não amam.
Mas porque não conseguem se desconectar, ainda que por instantes, da exigência constante de estar disponível, inteira, forte e presente o tempo todo.
O burnout materno não surge da falta de amor.
Ele nasce do excesso de exigência, da ausência de apoio, da solidão emocional e da ideia equivocada de que cuidar de si é egoísmo.
Cuidar da saúde emocional da mãe é, também, cuidar da relação que ela constrói com seus filhos. Uma mãe que encontra espaço para existir é uma mãe que consegue permanecer, não por obrigação, mas por presença real.
Reconhecer limites, pedir ajuda e desejar pausas não diminui a maternidade.
Humaniza.

Deixe um comentário